Lula e os Sarneys: a continuidade do velho poder que Lula dizia combater
Há uma ironia profundamente reveladora na trajetória política brasileira. Durante o governo Sarney, entre 1985 e 1990, Lula e o PT fizeram oposição ao presidente e ao que ele representava: a continuidade das velhas estruturas de poder no interior da Nova República. Décadas depois, porém, o antigo adversário foi convertido em aliado privilegiado. Em 2009, Lula saiu publicamente em defesa de Sarney e declarou que ele tinha “história no Brasil suficiente para que não seja tratado como uma pessoa comum”. A frase funciona como síntese de uma transformação maior: a retórica da ruptura cedeu lugar à acomodação com as oligarquias. O que antes era denunciado como símbolo do atraso passou a ser tratado como patrimônio político do sistema. Desde então, consolidou-se um vínculo estreito entre Lula e os Sarneys.
Quando Lula visitou Roseana Sarney em 2010, emprestou seu apoio à sua reeleição e ajudou a reforçar a narrativa de que o Maranhão “bombou”. Bombou tanto que o estado segue entre os mais pobres, atrasados e corroídos pela corrupção no Brasil. Ao lado dela, Lula, sempre encenando o papel de líder popular e bem-intencionado, carregava justamente o mesmo traço que um dia prometeu combater: em seus governos, a corrupção também se expandiu em escala, alcance e valores. A Refinaria Premium, vendida como símbolo de progresso, acabou se transformando em mais um monumento ao desperdício, à propaganda e ao privilégio, beneficiando sobretudo setores das elites instaladas nos três Poderes.
Sarney nem sequer tentou disputar a reeleição presidencial. Homem dos militares, sua utilidade histórica era outra: servir de ponte, escudo e garantia numa transição cuidadosamente controlada. Desde o fim de seu mandato, tenta se apresentar como artífice da redemocratização e estadista de um período difícil. Mas a realidade é menos nobre. Ele presidiu o partido de sustentação da ditadura e só chegou ao Planalto porque era vice de Tancredo Neves, cuja morte abriu inesperadamente o caminho para sua posse. Nunca foi produto de uma ruptura democrática plena, mas de uma transição negociada sem acerto de contas com os responsáveis pelo autoritarismo. Para os militares, Sarney era uma figura confiável: alguém do próprio meio, apto a garantir continuidade, moderação e blindagem. Sua ascensão não representou a vitória da democracia sobre a velha ordem, mas a prova de que a velha ordem soube sobreviver dentro da nova.
No fim, a lógica permaneceu a mesma: os velhos “heróis” da República apenas se reciclam, se protegem e se absolvem mutuamente. Mudam os discursos, mudam as alianças, mudam os personagens em cena, mas o sistema de privilégios continua de pé. E, enquanto essa engrenagem se preserva, quem paga a conta é sempre o povo — condenado a conviver com o atraso, a impunidade e a decadência produzidos por elites que jamais respondem plenamente por seus fracassos.
