SOBRE BRASILSEC21.com

O autor deste blog é um brasileiro do Nordeste. Deixou sua região e o Brasil em 1983, no auge da hiperinflação, da seca e do sofrimento agravado pelas consequências da atuação das elites dos três Poderes. Na Alemanha, formou-se pela Universidade de Würzburg, na Baviera. Mais tarde, regressou ao Brasil, mas, pelos mesmos motivos que o fizeram deixar o Brasil em 1983, decidiu partir novamente para a Alemanha.

Este blog é uma forma de resistência diante de uma cultura oportunista e nociva, à qual grande parte das elites dos três Poderes aderiu em benefício próprio, sem verdadeiro compromisso nem solidariedade para com a maioria dos brasileiros.

Enquanto a maioria dos brasileiros trabalha honestamente e faz sua parte para construir um Brasil mais forte, uma minoria entrincheirada nos três Poderes da República age segundo uma lógica oportunista que ajuda a manter o país em atraso, empurra empresários para a corrupção, arrasta brasileiros para o crime e entrega serviços públicos muito abaixo daquilo que a população tem o direito de receber.

Hoje, o crime organizado se espalhou por todo o território nacional. Suas raízes remontam ao período em que os três Poderes endividaram o Estado para sustentar a farsa do “milagre econômico” no final da década de 1960, empurrando milhares de brasileiros para a pobreza extrema nas décadas de 1970 e 1980. Enquanto isso, as elites ligadas a esses Poderes se blindavam, aprovando leis para aumentar os próprios salários, privilégios e benefícios. Crime organizado e crime legalizado. Vejam onde chegamos na atualidade!

Adalberto Vasconcelos de Araújo

Brasileiro com cidadania alemã, residente na Alemanha desde 1983. Jornalista e Diplom-Kaufmann pela Universidade de Würzburg. Ex-juiz leigo no Amtsgericht por quatro anos, ex-vice-líder do grupo de imigração e diversidade de um partido alemão hoje no governo por dez anos, e ex-docente em diversas universidades alemãs de ciências aplicadas por vinte anos. Ingressando oficialmente na aposentadoria, mas sem se afastar da vida pública. Atualmente atua como lobista registrado no Bundestag alemão, defendendo maior proteção dos consumidores como indivíduos e no Brasil se engaja por uma maior conscientização sobre corrupção, maus serviços públicos e pobreza oculta no Brasil.

Sou testemunha dos anos 70 e 80 e do desenrolar das graves consequências geradas pelos péssimos resultados da atuação dos três poderes – consequências que impactaram de forma profundamente destrutiva a vida de milhões de brasileiros.

Sou também testemunha de uma política de segregação do Nordeste que desde 1889 foi mantida até os anos 90. Vivenciei, na prática, os efeitos dessa política tanto no Brasil quanto na Alemanha, ao longo das décadas de 1980 e 1990 e na primeira década do novo milênio.

Presenciei o sofrimento de muitas famílias e a atuação irresponsável de diversos políticos da minha região. Vi também o oportunismo da Igreja Católica local, que, diante da pobreza e da miséria, muitas vezes se valeu do desespero das pessoas para fortalecer seu patrimônio e alimentar, de forma irresponsável, a fé em um milagre – mesmo sabendo que ele não existia – apenas para manter todos dentro da igreja periodicamente rezando, e quando lhes davam alguma coisa no contexto da ajuada ao próprio desenvolvimento, o faziam em forma de empréstimo.

Naquele contexto, como milhões de brasileiros, também acreditei nas promessas de Lula, que, pela televisão, nos fazia acreditar na possibilidade de um Brasil melhor. Parecia que, com alguém como ele – vindo da pobreza do sertão nordestino, marcado pela discriminação por ser pobre e nordestino, e ainda assim tendo conquistado espaço na política -, o país finalmente poderia conhecer dias melhores.




Fui forçado a deixar o Brasil na década de 1980, diante das condições adversas geradas pelos resultados da atuação dos três poderes e de suas elites apoiadoras – circunstâncias que também atingiram profundamente minha família.

Como milhares de outros jovens, eu trabalhava durante o dia e estudava à noite. Tive a sorte de poder viver assim – muitos não tiveram. Muitos enfrentaram a dureza da lavoura. Quantas crianças e famílias foram empurradas para o corte de cana, para o garimpo de Serra Pelada, para o crime ou para a prostituição? Não duvido que parte das raízes do crime organizado no Brasil tenha se formado nesse período de sofrimento extremo.

É muito duro ver pais e mães lutando para garantir o mínimo necessário à sobrevivência de seus entes queridos, depois de terem perdido quase tudo em razão das graves consequências de uma atuação irresponsável das elites dos três Poderes do Estado – justamente aquele que deveria assegurar o bem-estar de seus cidadãos. É igualmente doloroso ver colegas de escola perderem seus pais para o suicídio, como consequência do fracasso econômico. E talvez o mais difícil seja testemunhar tudo isso – o sofrimento ao redor – e sentir-se impotente, sem conseguir fazer nada para transformar essa realidade.

Movido pelas mesmas razões que hoje fazem 67% dos jovens brasileiros entre 16 e 35 anos sonharem em deixar o país em busca de uma vida melhor, também fui embora no início da década de 1980. Mudaram-se as aparências, mas os problemas institucionais continuam.

A esperança de muitos brasileiros tornou-se ao longo das décadas passadas quase messiânica, semelhante à dos cristãos que aguardam a chegada de Jesus para salvá-los. O problema é que, enquanto se espera pela salvação, a vida concreta continua impondo sofrimentos e consequências duríssimas a milhões. E é nesse ponto que emerge uma contradição inquietante: alguns parecem receber mais “graças” do que outros, perpetuando-se nos poderes da República, cooperando em negºócios lucrativos com seus entes querisos, enquanto a maioria dos filhos de Deus amarga as consequências de decisões e práticas que não controla, mas cujos efeitos é obrigada a suportar. Enquanto se esperar mais pela intervenção divina do que pela ação humana, o Brasil continuará cercado pelas bênçãos de sempre e condenado às consequências de sempre.

Nosso povo e nossa cultura possuem uma beleza singular; somos filhos de uma terra extraordinária. Mas há aí um paradoxo: essa abundância natural, aliada à fé de que Deus, em algum momento, porá tudo em ordem, parece favorecer uma certa complacência diante do que está errado – como se a grandiosidade do país e a força da fé fossem capazes de suavizar a dureza de suas contradições.

Pergunto-me como é possível que brasileiras e brasileiros ocupem os mais altos cargos do Estado e, ainda assim, se mostrem tão indiferentes às consequências de suas decisões. Ao longo de décadas, suas ações têm dificultado mais a vida da população do que contribuído para melhorá-la. Gerações inteiras foram marcadas por esses efeitos. Muitos dos brasileiros que hoje vivem na pobreza ou mesmo na criminalidade – inclusive organizada – carregam as consequências acumuladas de decisões tomadas nas décadas de 60, 70 e 80.

Que exemplos foram dados a essas gerações? E o que estamos aprendendo, hoje, com o comportamento de grande parte daqueles que ocupam posições de poder?

Poder viver fora do Brasil é, ao mesmo tempo, uma bênção e um castigo. A bênção de ter oportunidades e segurança; o castigo de não poder viver plenamente no país que amamos. Não é uma escolha que me agrada – é uma imposição da realidade.