
Um estado tão rico em potencial como o Maranhão continua desperdiçando, há séculos, oportunidades nacionais e globais de desenvolvimento. Em vez de atrair investimentos, gerar prosperidade e transformar suas riquezas naturais, culturais e humanas em bem-estar para a população, o estado reafirma-se como um dos maiores retratos da incompetência administrativa de seus três poderes.
O Maranhão vive sob um atraso crônico, implementado, fortalecido e mantido ao longo do tempo por gestores e servidores públicos incapazes nos altos escalões do Executivo, do Legislativo e do Judiciário. Não se trata apenas de má administração ocasional, mas de uma estrutura persistente de ineficiência, privilégio e abandono institucional.
Já em 1838, parte da população maranhense se revoltou contra a exclusão social, os abusos de poder e a precariedade da gestão pública, em um movimento que entrou para a história como a Balaiada. Desde então, pouco mudou em sua essência: a corrupção e a má gestão seguem produzindo consequências profundas, como pobreza, criminalidade, serviços públicos precários e opressão social exercida justamente por meio da ausência ou da péssima qualidade desses serviços.
Ainda hoje, o Maranhão carece de um plano sério, contínuo e tecnicamente competente para promover o desenvolvimento humano e econômico do estado. Basta observar a precariedade de sua infraestrutura de transportes. Sabe-se, pelo menos desde a época do Império Romano, que uma das primeiras condições para o desenvolvimento econômico é uma rede de transportes eficiente. Quando estradas, portos, ferrovias e sistemas logísticos funcionam adequadamente, o comércio flui, a circulação de riquezas se intensifica e a prosperidade encontra terreno fértil para surgir.
Cidadãos profissionalmente qualificados, socialmente desenvolvidos, economicamente independentes e verdadeiramente empoderados sempre representaram uma ameaça à classe dominante. Um povo instruído, saudável, seguro, produtivo e consciente de seus direitos dificilmente aceita ser manipulado por promessas eleitorais, dependência assistencialista ou estruturas políticas baseadas na miséria.
Ainda no período imperial, o Nordeste – região que foi berço de importantes revoltas sociais, movimentos contra a escravidão e mobilizações em favor de maior autonomia política – passou a ser progressivamente negligenciado pelo centro do poder nacional. Essa lógica de abandono, exclusão e exploração política permaneceu ao longo da história. O Maranhão e grande parte do Nordeste foram deixados à própria sorte e entregues a grupos políticos que transformaram a pobreza em instrumento de controle eleitoral.
Em vez de promoverem desenvolvimento real, muitos desses grupos cultivaram falsas esperanças de dias melhores, sustentando a população com medidas paliativas e esmolas sociais, sem jamais oferecer os instrumentos necessários para sua emancipação: saúde pública digna, segurança eficiente, educação de qualidade, infraestrutura de transportes moderna e oportunidades concretas de trabalho, empreendedorismo e crescimento econômico.
É nesse ambiente que muitos empresários acabam sendo empurrados a negociar com agentes corruptos para evitar que seu talento, seu investimento e sua capacidade de empreender sejam destruídos pela burocracia, pela perseguição política ou pela ausência de segurança jurídica. É também nesse contexto que parte da juventude é lançada à criminalidade, depois de crescer exposta à violência dentro de casa, nas ruas, nas escolas abandonadas, nos bairros esquecidos e até nos próprios serviços públicos falhos oferecidos pelos três poderes.
O resultado é a conversão do destino de inúmeras famílias em ciclos de sofrimento, medo, dependência e desgraça social. Isso não significa justificar o crime. Crime é crime e deve ser punido com todo o rigor da lei. No entanto, é impossível ignorar a origem do mal. Quando o Estado falha de forma contínua, quando administra a pobreza em vez de combatê-la, quando abandona gerações inteiras à ignorância, à violência e à falta de oportunidades, ele também participa da produção das condições que empurram brasileiros para a prática do mal.
Nesse contexto, aqueles que criam, mantêm ou se beneficiam dessas condições também carregam responsabilidade política, moral e, em muitos casos, responsabilidade jurídica.
Minhas raízes nordestinas: memória, afeto e pertencimento
Vejo com clareza como essa política perversa contra a maioria dos maranhenses tem prosperado ao longo do tempo. A rodovia mostrada no vídeo abaixo é um exemplo concreto desse abandono. Ela revela, de forma quase didática, como a precariedade da infraestrutura pública se transforma em obstáculo ao desenvolvimento, em risco permanente para a população e, possivelmente, em fonte de enriquecimento ilícito para grupos que se beneficiam da repetição interminável de obras mal executadas, reformas provisórias e contratos públicos pouco transparentes.
Outro sintoma desse atraso é a limitada imaginação política imposta a uma população que ainda não consegue se libertar dos maus candidatos a cargos eletivos nem de muitos integrantes dos três poderes no Maranhão, os quais ajudam a manter o estado aprisionado em sua estagnação econômica e social. O povo, porém, não deve ser culpado por essa situação. Ele nunca foi devidamente empoderado para participar da cogestão de seus próprios recursos, fiscalizar o destino do dinheiro público ou reconhecer, no espaço político, homens e mulheres de virtude, competência e espírito público, capazes de conduzir o estado a um futuro melhor.
Ao contrário, o povo foi mantido fraco, dependente e distante dos instrumentos reais de decisão. A política maranhense tem empoderado muito mais uma pequena classe privilegiada do que a maioria da população. Muitos dos que se elegem alimentam falsas esperanças apenas para ascender a essa mesma classe, em vez de romper com o paradigma perverso que transforma pobreza em capital eleitoral. Assim, o cidadão foi reduzido à condição de mero eleitor, dependente de benefícios sociais insuficientes e refém de serviços públicos precários, que não libertam, não qualificam, não protegem e não empoderam ninguém.
A rodovia que liga São Luís ao Piauí talvez seja um dos símbolos mais evidentes dessa tragédia administrativa. Nunca a vi em estado adequado de conservação. Sei que, de tempos em tempos, ela passa por reformas, mas logo volta a se deteriorar após poucos períodos de chuva. Lembro-me, inclusive, de placas informando sobre empréstimos de bancos internacionais destinados a essas obras. A pergunta inevitável é: como pode uma estrada receber tantos recursos, tantas promessas e tantas intervenções, e ainda assim permanecer, por décadas, como ameaça constante à vida e ao desenvolvimento?
Essa BR tornou-se símbolo do resultado produzido pela má gestão pública, pela fiscalização deficiente e pela responsabilidade técnica insuficiente no Maranhão. Muitas vidas já se perderam nela, e incontáveis famílias foram lançadas à dor, ao prejuízo e à desgraça. Em minha avaliação mais severa, isso deixou de ser mera incompetência administrativa: tornou-se uma forma de violência institucional. Quando autoridades e responsáveis técnicos sabem do perigo, conhecem os riscos, dispõem de recursos, anunciam obras e, ainda assim, permitem que a precariedade se repita, a omissão passa a carregar um peso moral e jurídico muito mais grave.
Os usuários dessa rodovia são cidadãos que querem prosperar, trabalhar, pagar seus impostos e contribuir para um Maranhão forte, justo e digno para todos. Eles fazem a sua parte – e a fazem muito bem. Há muito tempo, a limitação financeira do estado deixou de ser explicação plausível para a precariedade da infraestrutura rodoviária maranhense. O problema parece estar menos na ausência absoluta de recursos e mais na forma como eles são planejados, aplicados, fiscalizados e protegidos contra desperdício, captura política e corrupção.
Empreendedores do setor de transporte de cargas, motoristas, trabalhadores, comerciantes, famílias e todos os que dependem dessa rodovia vivem sob alto risco de perder a vida, destruir seus veículos, arruinar seus negócios ou comprometer o sustento de suas casas. Já as elites dos três poderes, direta ou indiretamente responsáveis pela qualidade desse trabalho, raramente enfrentam as consequências da própria incompetência. Permanecem protegidas, distantes da lama, dos buracos, dos acidentes, dos prejuízos e das mortes, enquanto a população paga a conta com sofrimento, insegurança e, muitas vezes, com a própria vida.
Sou maranhense e fui forçado a deixar minha terra em 1983, no início da chamada década perdida do Brasil. Pelas mesmas razões que me levaram a sair, muitos jovens brasileiros hoje também sonham em abandonar o país em busca de oportunidades, dignidade e segurança. Segundo matéria divulgada em 2024, 67% dos brasileiros entre 16 e 35 anos afirmam ter vontade de deixar o Brasil. Esse dado não é apenas estatístico; é o retrato de uma juventude que deixou de acreditar que seu próprio país será capaz de lhe oferecer futuro.
Entre 2024 e 2025, estive três vezes no Maranhão. E, todas as vezes que passo por lá, saio com o coração dividido: de um lado, reencontro uma terra de força, beleza, cultura e humanidade extraordinárias; de outro, vejo um estado ainda sem horizonte real de ordem e progresso, preso a um sistema de gestão que bloqueia seu verdadeiro desenvolvimento humano, econômico e social.
Meu povo e minha cultura me marcaram mais profundamente, em pouco tempo de vivência no Maranhão, do que mais de quatro décadas de vida na Alemanha. Sempre que piso em solo maranhense, sinto como se minhas raízes, até então adormecidas, despertassem de imediato e voltassem a se prender fortemente à minha terra. Nasce em mim, então, um sentimento poderoso de não querer mais deixar meu povo nem a cultura que me formou. Talvez por isso eu não permaneça mais tempo no Maranhão: essa força afetiva chega a ser maior do que a razão. Quanto mais tempo passo aí, menor se torna meu desejo de voltar para a Alemanha. E, quando retorno, ainda enfrento uma dura fase de readaptação. Minha família é a fonte da energia que me sustenta vivendo fora da minha terra. Embora eu more na Alemanha há tantas décadas, nada se compara à força vital das minhas raízes nordestinas, sobretudo maranhenses. Meus pais são retirantes do Ceará, e sei, pela minha própria história, que raízes nordestinas são fortíssimas.


