Um país como o Brasil, com todos os seus potenciais e possibilidades, poderia ter observado com muita atenção, desde 1822, como os Estados Unidos e até pequenos Estados europeus se desenvolveram. O Brasil dispunha de embaixadores, cônsules e cônsules honorários em muitas partes do mundo. Além disso possui historiadores, sociólogos, filósofos e outros estudiosos à sua disposição. Poderia ter estudado trajetórias de desenvolvimento, analisado modelos institucionais bem-sucedidos e aprendido com eles como os Estados organizam prosperidade, educação, segurança, infraestrutura e mobilidade social. Com isso, poderia ter acumulado experiência, conhecimento comparado e capacidade institucional para desenvolver, corrigir e aperfeiçoar, com base em nossa cultura, continuamente seu próprio modelo ao longo das décadas.
Em vez disso, durante muito tempo, fortaleceu-se sobretudo uma pequena elite dominante. Por meio de legislação, privilégios, altos salários, direitos especiais e mecanismos institucionais de proteção, esse grupo foi se afastando cada vez mais da realidade vivida pela maioria dos brasileiros. Essa distância é visível em praticamente todas as áreas: educação, saúde, renda, segurança, acesso à Justiça, uso da infraestrutura pública, transporte público e serviços públicos.
O Brasil sempre tolerou por tempo demais aquilo que não presta para a maioria dos brasileiros, mas raramente tolerou que suas elites sentissem os efeitos negativos de seus próprios atos, decisões e omissões. Durante décadas, blindou os grupos instalados nos Três Poderes e aqueles que os sustentam, enquanto a maioria da população permaneceu e permanece exposta a serviços públicos precários, insegurança, humilhação e abandono.
O Brasil é, sem dúvida, um país belo e rico. Mas muito do que hoje aparece como positivo é menos resultado de uma liderança política extraordinária do que consequência de circunstâncias favoráveis: dimensão territorial, riqueza natural, diversidade geográfica, força cultural e potencial humano. Essas forças existem, mas nunca foram utilizadas com a consistência, a responsabilidade e a qualidade institucional que um país desse tamanho teria merecido.
Se o Brasil não for observado com crítica implacável, e se não houver uma busca séria por soluções para seus problemas estruturais, o país permanecerá condenado a repetir novas versões do mesmo erro. Então, muda apenas a forma do problema – e cada nova versão se torna mais brutal para a maioria dos brasileiros.
