Ser nordestino é ser profundamente brasileiro. Mas, durante muito tempo, também significou carregar um estigma social injusto: ser visto como alguém de menor valor dentro da própria sociedade brasileira. Em muitas regiões e discursos, o Nordeste foi tratado não como parte essencial da identidade nacional, mas como sinônimo de atraso, pobreza e inferioridade. Esse preconceito não surgiu por acaso; ele é resultado de uma longa construção histórica, política, econômica e cultural.
A história não é apenas uma sucessão de datas, governos e acontecimentos distantes. Ela é o registro de como decisões tomadas por líderes, instituições e pessoas comuns moldaram o presente. Também é o registro de como omissões, conivências e silêncios produziram consequências que atravessam gerações. O Brasil de hoje não surgiu por acaso. Ele é resultado de escolhas feitas no passado – por governos, parlamentos, tribunais, elites econômicas, agentes públicos e também por uma sociedade que, muitas vezes, aprendeu a tolerar o erro como se ele fosse parte natural da vida nacional.

A ação civil pública ajuizada pelo Ministério Público Federal contra a União e o Estado da Paraíba, buscando responsabilização por violações cometidas contra integrantes das Ligas Camponesas e trabalhadores rurais entre 1964 e 1981, deve ser entendida nesse contexto mais amplo. Ela não trata apenas de um capítulo antigo da repressão política. Trata de uma estrutura histórica de violência, impunidade e abandono que atingiu trabalhadores pobres do campo e deixou marcas profundas na formação social brasileira.
Segundo o MPF, a repressão às Ligas Camponesas não foi composta por episódios isolados. Ela teria resultado de um sistema organizado de perseguição, sustentado pela atuação conjunta de agentes estatais e estruturas privadas ligadas ao latifúndio. Trabalhadores rurais foram vigiados, presos, humilhados, ameaçados, torturados, cassados politicamente e, em alguns casos, desapareceram. A violência física era acompanhada por uma violência simbólica e social: calar a voz dos pobres, impedir a organização dos trabalhadores e destruir a possibilidade de que essas pessoas se tornassem sujeitos políticos.
As Ligas Camponesas surgiram para enfrentar condições de exploração no campo. Seus integrantes reivindicavam reforma agrária, acesso à saúde, educação, previdência social, carteira de trabalho e melhores condições de vida. Em outras palavras, não pediam privilégios. Pediam o reconhecimento de direitos básicos. Mas, no Brasil, reivindicar direitos sempre foi tratado por determinados setores como ameaça à ordem. E é justamente aí que a história das Ligas Camponesas revela um problema estrutural: quando o Estado se coloca contra os mais fracos, o erro deixa de ser exceção e passa a organizar a vida social.
O Poder Executivo teve papel decisivo nessa história. Durante a ditadura militar, estruturas estatais foram mobilizadas para perseguir lideranças camponesas e conter a organização dos trabalhadores rurais. O caso de Pedro Inácio de Araújo, o Pedro Fazendeiro, é simbólico. Segundo o MPF, ele se apresentou voluntariamente ao Exército, confiando na legalidade institucional e na possibilidade de esclarecer os fatos. O que deveria ser uma relação mínima de confiança entre cidadão e Estado transformou-se em tragédia: após se apresentar, teria sido preso, torturado e desaparecido. Quando a instituição que deveria proteger o cidadão transforma a confiança em armadilha, a democracia é destruída por dentro.
Mas o problema não se limitou ao Executivo. O Legislativo também aparece nessa história como espaço de exclusão e aniquilamento político. João Alfredo Dias, conhecido como Nego Fuba, era vereador eleito em Sapé e liderança das Ligas Camponesas. A cassação de seu mandato logo após o golpe militar mostra que a repressão não buscava apenas eliminar indivíduos fisicamente. Buscava retirar dos trabalhadores rurais a sua voz política. Ao cassar representantes eleitos, o Estado transformou reivindicações sociais em questão de segurança nacional. O que era demanda por direitos passou a ser tratado como perigo. O que era representação democrática passou a ser visto como ameaça.
Essa lógica teve consequências profundas. Quando pobres, camponeses e trabalhadores são impedidos de participar da política, a democracia se torna formal, mas não plenamente real. Ela existe no papel, nos discursos e nas instituições, mas não alcança a vida daqueles que mais precisam dela. A cassação de lideranças como Nego Fuba não atingiu apenas uma pessoa. Atingiu comunidades inteiras, famílias inteiras, gerações inteiras. A mensagem era clara: os trabalhadores podiam obedecer, sofrer e silenciar; mas não podiam se organizar, reivindicar e representar a si mesmos.
O Poder Judiciário, por sua vez, aparece nessa história sobretudo pela ausência de responsabilização efetiva ao longo de décadas. A impunidade não é neutra. Quando crimes graves não são investigados, julgados e punidos, o Estado ensina que determinadas vidas valem menos. Segundo o MPF, a violência contra os camponeses não cessou nem diminuiu com a redemocratização da mesma forma que ocorreu com outros grupos atingidos pela repressão. Isso teria acontecido porque a estrutura repressiva se apoiou em dois pilares duradouros: a violência privada e a omissão estatal.
Essa omissão produziu continuidade. O MPF cita assassinatos e desaparecimentos de lideranças rurais ao longo de décadas: Margarida Maria Alves, José Avelino do Nascimento, Manoel Luiz da Silva, Almir Muniz, Ivanildo Francisco, Rodrigo e Orlando, além de Aldecy e Ana Paula, assassinados em 2023. A sucessão desses casos mostra que a violência no campo não pertence apenas ao passado. Ela persiste quando o Estado não rompe com os mecanismos que permitiram sua reprodução.
É por isso que a ação do MPF é importante. Ela não busca apenas reconhecer violações antigas. Ela procura enfrentar os efeitos de uma estrutura que permaneceu ativa porque não foi devidamente responsabilizada. Pedidos como abertura de arquivos, preservação de locais de memória, inclusão da história das Ligas Camponesas no currículo escolar, retirada de homenagens públicas a agentes da repressão e responsabilização civil e administrativa post mortem não são gestos simbólicos vazios. São tentativas de dizer que o Estado não pode tratar a violência contra trabalhadores como detalhe histórico.
Além de prisões e espancamentos, os camponeses eram submetidos ao “enchocalhamento” (forçados a correr com chocalhos de
gado no pescoço sob chicotadas) e ao “cabocó” (tanques de água onde eram mantidos mergulhados até a boca por dias), de
Além de prisões e espancamentos, os camponeses eram submetidos à humilhação pública chamada “enchocalhamento”, descrita na ação, revela a profundidade moral dessa violência. Trabalhadores eram obrigados a correr com chocalhos no pescoço, sob agressões, como se fossem animais. O objetivo não era apenas ferir o corpo. Era destruir a dignidade. Era ensinar à coletividade que quem ousasse lutar por direitos poderia ser reduzido publicamente à condição de coisa. Esse tipo de violência não desaparece apenas porque muda o regime político. Ele deixa marcas na cultura institucional, na relação entre poder e pobreza, na forma como o Brasil continua tratando aqueles que reivindicam justiça.
O caso das Ligas Camponesas mostra que as decisões dos Três Poderes não ficam confinadas aos palácios, gabinetes, assembleias ou tribunais. Elas chegam à mesa vazia do trabalhador rural, à família que perde um pai, ao filho que cresce sem resposta, à comunidade que aprende a viver com medo, ao cidadão que deixa de confiar no Estado. Quando o Executivo reprime, o Legislativo cala ou exclui, e o Judiciário não responsabiliza, o resultado não é apenas uma crise institucional. É sofrimento humano acumulado.
Enquanto a maioria dos brasileiros arcava com as consequências das decisões tomadas no alto do poder, as elites mandatárias dos Três Poderes aprendiam a se proteger dentro do próprio sistema que controlavam. A lei, que deveria limitar abusos e defender a sociedade, muitas vezes foi usada como instrumento de autoproteção institucional. Criavam-se normas, exceções, interpretações, privilégios, ritos e demoras capazes de transformar responsabilidade em impunidade.
=> O povo enfrentava a violência, a pobreza, o medo, a perda de direitos e a destruição de vidas concretas.
=> As elites, por sua vez, permaneciam protegidas por cargos, formalidades, imunidades, prescrições, sigilos, corporativismos e discursos jurídicos que raramente alcançavam os responsáveis pelos desastres produzidos por suas próprias decisões.
Assim, consolidou-se no Brasil uma lógica perversa: os erros do poder recaem sobre a sociedade, mas os custos políticos, jurídicos e humanos desses erros quase nunca alcançam quem os causou.
A repressão aos camponeses fazia parte de um consórcio financiado especialmente pelo chamado “Grupo da Várzea”, liderado por dois latifundiários da região, Ribeiro Coutinho e Veloso Borges – este último, bisavô do atual governador da Paraíba, Lucas Ribeiro (PP).
Essas milícias privadas já existiam quando ocorreu o golpe. Três meses antes, em janeiro de 1964, foram responsáveis pela chacina de Mari (nome de um município paraibano), com 11 mortos, o que marca o início da sua atuação, segundo o MPF. O massacre, diz a ação, foi executado por uma comitiva de policiais e capangas a mando de um usineiro. Depois do golpe, em 31 de março de 1964, as milícias financiadas pelos proprietários de terra passaram a atuar de forma coordenada com militares do 15º Regimento de Infantaria do Exército, comandado pelo general Ednardo D’Ávila Mello.
Sob o comando de Mello, afirma o MPF, o Exército realizou treinamentos nas terras dos latifundiários que, na prática, serviam para invadir áreas das ligas e intimidar trabalhadores.
Já as usinas cediam sua infraestrutura para a prática de crimes. “Há testemunhos convergentes de que as vítimas teriam sido conduzidas para usinas açucareiras da região, onde foram executadas e seus corpos destruídos em fornalhas de açúcar para eliminar vestígios biológicos”, diz o texto da ação, assinado pelo procurador José Godoy Bezerra de Souza.

Mello foi exonerado do comando do 2º Exército em 1977, pelo presidente Ernesto Geisel, após a repercussão de mortes no DOI-Codi de São Paulo, do qual ele era responsável, como a do jornalista Vladimir Herzog e a do operário Manoel Fiel Filho. Ele morreu em 1984.
Por isso, conhecer também essa história é fundamental. Uma sociedade mal informada decide pior. E decisões ruins, quando se acumulam, produzem efeitos negativos para todos. O Brasil que tolera a violência contra trabalhadores ontem é o mesmo Brasil que hoje ainda tolera a impunidade, o privilégio, a omissão e a normalização do errado. A história das Ligas Camponesas não é apenas uma história do campo. É uma história sobre o próprio Brasil: sobre quem teve voz, quem foi silenciado, quem foi protegido e quem foi abandonado.
Nosso objetivo não deve ser apenas olhar para trás com indignação. Deve ser compreender como esse passado ainda organiza o presente. A persistente tolerância ao erro no Brasil nasce justamente dessa incapacidade de transformar memória em responsabilidade. Quando os erros do Estado não são reconhecidos, eles se repetem. Quando os responsáveis não são responsabilizados, a violência aprende a sobreviver. Quando a sociedade esquece, os mecanismos da injustiça continuam funcionando.
As Ligas Camponesas lutaram por direitos básicos. A repressão que sofreram mostra o quanto o Brasil historicamente resistiu a reconhecer a dignidade dos mais pobres. A ação do MPF, ao pedir reparação histórica e garantias de não repetição, abre uma oportunidade para que o país enfrente uma verdade incômoda: os erros do passado não ficaram no passado. Eles continuam presentes sempre que a violência é naturalizada, sempre que a impunidade vence, sempre que o Estado falha em proteger aqueles que mais precisam dele.
Uma nação não amadurece escondendo suas feridas. Amadurece quando tem coragem de reconhecê-las, estudá-las e impedir que continuem produzindo dor. A história das Ligas Camponesas deve ser lembrada não para alimentar ressentimento, mas para fortalecer a consciência pública. Porque um país que não compreende como seus poderes erraram contra seu próprio povo continuará permitindo que novos erros sejam cometidos em nome da ordem, da conveniência ou do silêncio.
