O legado dos Sarneys no Maranhão: riqueza capturada, povo abandonado

O Maranhão é o segundo maior estado do Nordeste e, do ponto de vista geográfico, um dos mais privilegiados do Brasil. Possui rios perenes, pastagens abundantes e terras férteis em grande parte de seu território. Ao longo de seus 640 quilômetros de litoral, abriga os Lençóis Maranhenses, paisagem singular no mundo, com milhares de lagoas de águas cristalinas em meio a dunas de areia branca. Sua topografia é notavelmente regular, com cerca de 90% da superfície situada abaixo dos 300 metros de altitude. O estado também reúne condições excepcionais para o lançamento de satélites.

Além disso, o Porto do Itaqui ocupa posição estratégica: é um dos portos brasileiros mais próximos da Europa e da costa leste dos Estados Unidos. Por ele escoa o minério de ferro de Carajás, além de parte expressiva da produção agrícola, especialmente a soja, uma das maiores da região. Em razão de sua localização, Itaqui tem enorme potencial para se consolidar como eixo logístico de conexão com mercados internacionais.

Apesar de todas essas vantagens naturais, logísticas e econômicas, o Maranhão apresenta um contraste dramático: a abundância de riquezas e oportunidades não se converteu em desenvolvimento social. O potencial do estado é extraordinário, mas a contrapartida em bem-estar para sua população continua profundamente insuficiente.

Recente matéria envolvendo a família Sarney: Cunhada de Sarney é afastada do TJ do Maranhão, mas segue recebendo salário… – Veja mais em https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2024/02/22/cnj-afasta-cunhada-de-sarney-do-tribunal-de-justica-do-maranhao-mas-com-salarios.htm?cmpid=copiaecola

O MA, apesar de todos esses potencias, possui o menor IDH do Brasil, a maior taxa de pobreza, a menor expectativa de vida e alguns dos piores índices de educação e mortalidade infantil. Em outras palavras, é o estado mais atrasado do país.

Maranhão: riqueza para poucos, atraso para muitos

A pergunta central é inevitável: como o Maranhão, estado dotado de imenso potencial econômico, riqueza natural, posição estratégica e importância histórica, pode ostentar alguns dos piores indicadores sociais do Brasil? O estado registra o menor IDH do país, uma das maiores taxas de pobreza, baixa expectativa de vida e índices alarmantes de deficiência educacional e mortalidade infantil. Em termos concretos, o Maranhão segue sendo um dos retratos mais contundentes do atraso nacional.

Esse quadro se torna ainda mais escandaloso quando se observa que, há mais de seis décadas, uma das figuras mais influentes da política brasileira tem justamente no Maranhão sua base de poder: José Sarney. Ex-presidente da República, ex-governador, ex-senador e ex-presidente do Senado por diversas vezes, Sarney construiu uma das mais duradouras estruturas de mando da história política do país. Sua família, por sua vez, tornou-se uma das mais ricas e poderosas do Maranhão e do Brasil. A contradição salta aos olhos: como explicar que uma oligarquia tão longeva e tão poderosa tenha florescido justamente em um estado marcado por miséria persistente, dependência política e atraso estrutural?

Sarney iniciou sua trajetória política em 1955, ainda sob a influência de Vitorino Freire, uma das figuras mais emblemáticas do coronelismo maranhense. Freire dominou a política estadual por décadas, amparado em clientelismo, controle eleitoral e distribuição de favores. Foi dentro dessa engrenagem arcaica de poder que Sarney se formou politicamente. Sua ascensão inicial não representou ruptura com esse sistema, mas sim sua modernização: trocou-se o velho mandonismo por uma máquina de poder mais sofisticada, mais duradoura e mais eficiente na preservação de privilégios.

Com o passar do tempo, Sarney deixou de ser protegido para se tornar senhor absoluto de sua própria estrutura política. Apoiando-se na máquina estatal, no controle de alianças e na influência sobre meios de comunicação, consolidou um poder que extrapolou o Maranhão e alcançou a política nacional. O sarneysmo não foi apenas uma liderança; foi um sistema. Um sistema baseado na concentração de poder, na reprodução de lealdades pessoais, no controle da informação e na sobrevivência política por meio da dependência social.

A trajetória partidária de Sarney revela, com nitidez, sua lógica de atuação política. Foi governador do Maranhão entre 1966 e 1970 pela ARENA, partido que dava sustentação à ditadura militar, e depois seguiu por quase duas décadas vinculado ao campo governista do regime militar. Com a dissolução da ARENA, migrou para o PDS, legenda sucessora do aparato político da ditadura. Só abandonou esse campo quando percebeu que a abertura tornava o governismo militar cada vez menos sustentável. Ao aderir ao PMDB e viabilizar sua entrada na chapa de Tancredo Neves, não rompeu realmente com o sistema que o formou; apenas reposicionou-se dentro dele. Para os militares, Sarney era uma figura confiável, alguém do próprio meio, capaz de funcionar como escudo protetor numa transição sem revanchismo e sem verdadeiro acerto de contas com o povo – democracia. A chamada redemocratização brasileira, nesse sentido, esteve longe de representar uma ruptura plena: foi uma passagem cuidadosamente negociada, em que o velho poder cedeu o centro do palco sem abrir mão de preservar influência, garantias e blindagens. Sarney encarnou como poucos esse pacto de continuidade. Não foi um democrata por convicção, mas um sobrevivente político de instinto refinado, moldado para atravessar regimes sem jamais se desligar realmente das estruturas de poder.

A morte de Tancredo Neves o levou à Presidência da República. Coube a Sarney conduzir a fase final da transição democrática e o período em que foi promulgada a Constituição de 1988. Ainda assim, sua biografia não deixa de expor uma ironia histórica profunda: um homem formado no interior da máquina da ditadura acabou se convertendo no beneficiário político da redemocratização. Essa passagem não apaga seu passado; ao contrário, revela sua extraordinária capacidade de adaptação e preservação de poder.

Ao longo de décadas, Sarney acumulou não apenas capital político, mas também influência econômica e midiática. A aquisição do jornal O Estado do Maranhão e a posterior criação do Sistema Mirante de Comunicação consolidaram um império de mídia regional que ampliou sua capacidade de moldar narrativas, proteger aliados e enfraquecer adversários. Em estados marcados por baixa pluralidade informativa, o controle da comunicação não é apenas um ativo empresarial: é um instrumento direto de poder político.

A expansão patrimonial da família Sarney também chama atenção. Proprietária de ativos relevantes, imóveis de alto valor e extensas propriedades, a família tornou-se símbolo da fusão entre poder político, influência econômica e prestígio social. O caso da Ilha de Curupu, entre outros exemplos, reforça a percepção de distanciamento entre a elite dirigente e a realidade da maioria da população maranhense. Enquanto vastos setores do estado convivem com carências básicas em saúde, educação, saneamento e segurança, a família que dominou a vida política local durante décadas consolidou uma posição patrimonial privilegiada.

É precisamente aí que reside o ponto central da crítica: o Maranhão não é pobre por falta de potencial; é pobre porque seu potencial foi historicamente capturado por elites políticas que transformaram o estado em base de reprodução de poder. A permanência da miséria, do atraso e da dependência não é um acidente histórico. É, em grande medida, o resultado de um modelo de dominação política que sempre se mostrou altamente eficiente para conservar privilégios, mas profundamente incapaz – ou desinteressado – de promover desenvolvimento real.

José Sarney talvez represente, como poucos, a expressão acabada do patrimonialismo moderno brasileiro: a confusão entre o público e o privado, entre o interesse do estado e o interesse do grupo dominante, entre a máquina institucional e a perpetuação de uma dinastia política. Sua longevidade não é apenas sinal de habilidade individual, mas também evidência da fragilidade estrutural das instituições em enfrentar sistemas oligárquicos enraizados.

Por isso, a questão não é apenas biográfica, mas política e moral: o que explica que um estado submetido por tanto tempo à influência de uma mesma oligarquia permaneça tão atrasado? Se a permanência no poder fosse sinal de compromisso com o bem comum, o Maranhão deveria ser hoje um exemplo de prosperidade. Mas os fatos apontam na direção oposta. O legado político do sarneysmo, quando confrontado com a realidade social do Maranhão, revela uma verdade incômoda: houve êxito extraordinário na preservação do poder familiar, mas fracasso histórico na promoção do desenvolvimento coletivo.

Em suma, o caso Sarney talvez seja um dos exemplos mais eloquentes de como, no Brasil, a longevidade política nem sempre significa serviço prestado à população; muitas vezes significa apenas a notável capacidade de um grupo de se perpetuar no comando enquanto o povo permanece à margem do progresso.

A ironia final talvez seja a mais reveladora de todas. Nos anos 1980, Lula e o PT faziam oposição sistemática a José Sarney e ao seu governo, denunciando justamente aquilo que viam como expressão do velho poder oligárquico e da degradação política brasileira. Décadas depois, porém, o antigo adversário transformou-se em aliado estratégico e amigo político. O que antes era apresentado como símbolo do atraso passou a ser tratado como parceiro de governabilidade.

O mesmo Lula que nos anos 1980 combatia Sarney como símbolo do velho poder oligárquico passou, em 2009, a defendê-lo publicamente, afirmando que Em 2009, Lula saiu em defesa de José Sarney e afirmou que ele tinha história no Brasil suficiente para que não seja tratado como uma pessoa comum. Poucas frases traduzem tão bem a acomodação entre o discurso da mudança e a preservação das velhas estruturas de poder.

Sarney tem história no Brasil suficiente para que não seja tratado como uma pessoa comum (Lula sobre Sarney, 17.07.2009)

Revista Veja: https://veja.abril.com.br/coluna/augusto-nunes/a-esperteza-quando-e-muita-fica-grande-e-come-o-dono/?utm_source=chatgpt.com

Essa conversão não expõe apenas uma contradição pessoal ou partidária; ela revela, de forma brutal, como o sistema político brasileiro tem a capacidade de absorver seus supostos opositores e reconciliar, em nome do poder, aqueles que antes se combatiam em nome da mudança. No fim, o Maranhão permaneceu pobre, enquanto seus dominadores continuaram prestigiados em Brasília.


Envolvimento em corrupção

A família Sarney esteve envolvida em diversos escândalos de corrupção, nepotismo e atos secretos ao longo de sua longa trajetória política no Brasil. Abaixo, destacam-se alguns dos principais episódios:

🏛️ Atos Secretos no Senado

Durante a presidência de José Sarney no Senado (2003–2013), foram descobertos mais de 500 atos administrativos não publicados, conhecidos como „atos secretos“. Esses atos permitiram a nomeação e promoção de servidores, incluindo parentes de parlamentares e diretores do Senado, sem a devida transparência. A prática gerou ampla repercussão negativa e levou a investigações sobre a gestão do Senado na época .www12.senado.leg.br+1Congresso em Foco


👨‍👩‍👧 Nepotismo e Nomeações Irregulares

Diversos membros da família Sarney foram nomeados para cargos públicos por meio de atos secretos. Entre os casos mais notórios estão:

  • Maria do Carmo Macieira, sobrinha de Sarney, nomeada no gabinete da senadora Roseana Sarney.
  • Vera Portela Macieira Borges, também sobrinha, nomeada no gabinete do senador Delcídio Amaral.
  • João Fernando Sarney, neto de Sarney, nomeado e exonerado por ato secreto no gabinete do senador Epitácio Cafeteira.
  • Rosângela Terezinha Michels Gonçalves, mãe de João Fernando, nomeada logo após a exoneração do filho .www12.senado.leg.br+2Congresso em Foco+2

Além disso, funcionários como Amaury de Jesus Machado, conhecido como „Secreta“, atuaram como mordomos na residência de Roseana Sarney, sendo pagos com recursos públicos do Senado .jusbrasil.com.br+1


💰 Operação Faktor e Envolvimento de Fernando Sarney

A Operação Faktor investigou um esquema de corrupção envolvendo empresas da família Sarney, com saques em dinheiro e crimes contra o sistema financeiro nacional e a administração pública. Fernando Sarney, filho de José Sarney, foi um dos principais envolvidos, sendo indiciado por formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e tráfico de influência .Wikipédia+1Gazeta do Povo


🏦 Banco do Estado do Maranhão (BEM)

Durante a gestão de José Sarney como governador do Maranhão (1966–1970), o Banco do Estado do Maranhão (BEM) enfrentou sérias dificuldades financeiras. O banco foi alvo de investigações por suspeitas de má gestão e favorecimento político, embora não haja registros de condenações diretas envolvendo membros da família Sarney nesse caso específico.


🏭 Caso Fábrica do Rosário

Em 1996, o governo de Roseana Sarney firmou um protocolo com a empresa Kao-I Indústria e Comércio de Confecções Ltda., prometendo investimentos e geração de empregos. No entanto, a fábrica não cumpriu as promessas, gerando dívidas para cooperativas envolvidas e resultando em um processo judicial que se arrasta até hoje .Wikipédia+2Congresso em Foco+2


Controvérsia das Terras de Santo Amaro

Investe agora em terrenos situados em regiões do Maranhão onde há perspectiva de exploração de petróleo e gás natural. Os investimentos mais recentes se concentram em Santo Amaro, município localizado…

A região de Santo Amaro, no Maranhão, tornou-se foco de disputas fundiárias envolvendo a família Sarney. Propriedades na área foram alvo de especulação imobiliária, com denúncias de fraudes em registros de terras e múltiplas escrituras para o mesmo terreno. José Sarney foi acusado de ocupar irregularmente terras públicas na região, utilizando recursos do Banco do Brasil para desenvolver projetos agropecuários.

Com patrimônio estimado em R$ 250 milhões, Família Sarney agora investe em terras com gás

https://veja.abril.com.br/coluna/reinaldo/com-patrimonio-estimado-em-r-250-milhoes-familia-sarney-agora-investe-em-terras-com-gas/

Família Sarney coleciona escândalos no poder:

https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/1918/familia-sarney-coleciona-escandalos-no-poder

Escândalos da famila Sarney

https://www.estadao.com.br/brasil/escandalos-da-familia-sarney/?srsltid=AfmBOorrKm0BeVWlozGQhlDHUeECCutDhk_kWQeJrFqo92JTZIsRWkrM

Estadão mostrou existência de mais de 300 atos secretos no Senado em 2009

Esquema de nepotismo e improbidade administrativa abalou a credibilidade da Casa, na época presidida por José Sarney

https://www.estadao.com.br/150-anos/150-momentos/estadao-mostrou-existencia-de-mais-de-300-atos-secretos-no-senado-em-2009/?srsltid=AfmBOoogBkFSKFI4ge387FTYwmKKRvJQN612aXrzh2tTaMa9r8Bie2Ie

Biografia de Sarney contém erros e ‚maquia‘ escândalos
Livro não informa os valores de ações do presidente do Senado Federal

https://exame.com/mundo/biografia-de-sarney-contem-erros-e-maquia-escandalos

Sarney recebeu R$ 16,25 milhões em dinheiro vivo, diz Sérgio Machado

Segundo delator da Lava Jato, ex-senador recebia propina anualmente.
Além do dinheiro em espécie, R$ 2,25 mi teriam sido pagos por doação

https://g1.globo.com/politica/operacao-lava-jato/noticia/2016/06/sarney-recebeu-r-1625-milhoes-em-dinheiro-vivo-diz-sergio-machado.html