O editorial do Estadão acerta ao reconhecer que o crime organizado tem vencido a guerra e que a sociedade se sente desamparada. Mas esse desamparo não nasce apenas do avanço do PCC, do CV, das milícias ou da falta de instrumentos adequados para os agentes da lei.
Enquanto isso, o canal do governo federal se apressa em explicar que quem define como o crime deve ser classificado e combatido dentro do Brasil são os próprios brasileiros, por meio de suas instituições, suas leis e suas forças de segurança. A explicação parece conto de fadas. Vem de um Estado que, de tão fraco diante de crimes como corrupção, má distribuição de renda, enriquecimento gigantesco de elites dos Três Poderes e enfraquecimento contínuo da maioria da população, transmite a impressão de que já não protege os brasileiros – apenas tenta convencê-los de que ainda está no controle.

A sociedade se sente desamparada não apenas porque o crime organizado tem vencido a guerra nas ruas e nos presídios. Sente-se desamparada também porque convive há décadas com uma espécie de crime legalizado: decisões desastrosas dos Três Poderes que se repetem, protegem pequenos grupos com altos salários e regalias estrondosas e deixam a vasta maioria dos brasileiros refém de seus efeitos. Por isso o problema não é apenas policial. É também político, jurídico, institucional e moral.
Orgulho fora de hora. Os brasileiros agradecem qualquer ajuda séria para combater seus criminosos. Há mais de cem anos sonhamos com uma ordem capaz de permitir ao Brasil alcançar o progresso compatível com seu potencial econômico. Mas, década após década, tudo piora – e quem sofre os efeitos mais terríveis é a vasta maioria da população.
Não duvido que o crime organizado tenha crescido justamente porque a organização dos Três Poderes produziu, para a vida dos brasileiros, mais resultados desastrosos do que soluções capazes de fazer surgir a ordem para o progresso econômico e social que merecemos. Se os de casa se mostram incompetentes para construí-la, que se busque ajuda fora. É uma vergonha, sim – mas uma vergonha somada a tantas outras: o falso “milagre econômico” sustentado por altíssimo endividamento público; do fim dos anos 1960, as crises dos anos 1970; a década perdida dos anos 1980; os governos Lula I, II e III; os escândalos crescentes de corrupção e até denúncias de corrupção envolvendo a mais alta Corte do país.
A isso somam-se milhares de vidas perdidas. Desde o chamado milagre econômico, muitos jovens brasileiros foram empurrados para a prostituição, para a marginalidade e para o crime, enquanto o Estado tolerou o intolerável. O crime se organizou porque o Estado falhou, cooperou por omissão e blindou legalmente as elites dos Três Poderes contra os efeitos de seus próprios trabalhos, enquanto a maioria dos brasileiros pagava a conta.
Até a abolição da escravidão só avançou sob forte pressão do Reino Unido. Agora, se vem pressão dos Estados Unidos para enfrentar o crime organizado, que venha. Chega em boa hora. O Brasil já perdeu vidas demais e tempo demais sofrendo os efeitos terríveis das decisões e omissões dos Três Poderes.
Os brasileiros precisam trabalhar e ganhar melhor, construir um pequeno patrimônio e usufruir das bênçãos da nossa geografia e da nossa cultura sem medo de morrer nas ruas, nos hospitais públicos ou de sermos maltratados quando buscamos serviços públicos básicos. O brasileiro não precisa de mais discursos sobre soberania enquanto vive refém do crime, da incompetência institucional e da proteção legal dos que produziram esse desastre. BASTA!
