Autora: Méri Frotscher • Baixar gratuitamente o livro >>>
O livro Retorno à pátria alemã: migrações de retorno do Brasil para a Alemanha sob o nazismo (1938-1939), de Méri Frotscher, trata do problema histórico do germanismo político no Sul do Brasil, trata do retorno à Alemanha nazista de migrantes alemães residentes no Brasil, sobretudo no Sul, em especial no Vale do Itajaí. O centro do estudo não é uma abstração sobre “identidade”, mas um movimento concreto: pessoas e famílias que viviam no Brasil e decidiram voltar ao Reich num momento em que o nazismo organizava politicamente esse retorno por meio do Rückwandereramt da AO-NSDAP*, encarregado de cadastrar, examinar antecedentes e reinserir retornados na Alemanha. O livro mostra, portanto, que esse retorno não foi um acaso privado, mas um fenômeno politicamente enquadrado pelo Estado e pelo partido nazista.
Méri Frotscher mostra ainda que essa Rückwanderung do Brasil para o Reich não foi um processo privado ou casual, mas algo sistematicamente registrado, controlado e dirigido pelo aparato nacional-socialista. Para esse fim, a AO-NSDAP mantinha desde 1934 um órgão próprio, o Rückwandereramt, encarregado de registrar os retornados, verificar sua confiabilidade política e avaliar sua utilidade no Reich. Os números confirmam que não se tratava de fenômeno marginal: para 1937, 1938 e os meses até o início da guerra em 1939, o Reich registrou ao todo 8.384 imigrantes reichsdeutsche vindos do Brasil. Particularmente revelador é que esse retorno aparecia nas próprias fontes ligado à luta pelo Deutschtum** no exterior. Isso mostra que, para teuto-brasileiros no Brasil, o essencial não era apenas voltar à Alemanha, mas defender no exterior a nova forma de germanidade, já moldada pelo nazismo. Isso deixa claro que não se tratava apenas de migração, mas da reativação politicamente carregada de um “nós” alemão para além das fronteiras do Reich.

Frotscher mostra ainda que o problema não dizia respeito apenas a imigrantes isolados. O retorno envolvia famílias, inclusive com filhos nascidos no Brasil. A autora trabalhou com entrevistas de filhos de imigrantes alemães que acompanharam a família à Alemanha em 1938 ou 1939 e depois retornaram ao Brasil no pós-guerra, muitos deles brasileiros ou binacionais. Em outras palavras: o retorno ao Reich atingia também pessoas já nascidas em solo brasileiro, inseridas em famílias que continuavam a se perceber como parte de um universo alemão maior.
O ponto central do livro é este: o retorno não foi simples migração econômica. Foi, em muitos casos, uma reafiliação identitária e política ao Reich. Frotscher deixa claro que o tema da Volksgemeinschaft é central para sua pesquisa, isto é, a ideia de uma comunidade nacional alemã ampliada, racializada e politizada, à qual os retornados deviam ser reincluídos. O retorno era, assim, também retorno a um pertencimento. Isso é decisivo para entender que o problema não era apenas “saudade da Alemanha”, mas fidelidade a uma concepção de germanidade incompatível com a plena integração ao Brasil.
Ao mesmo tempo, o livro ajuda a explicar por que a questão teuto-brasileira não começou em 1933. Ela vinha de muito antes. A imigração alemã para o Sul do Brasil não produziu apenas colonos e descendentes integrados ao país. Produziu também, ao longo de gerações, uma esfera densa de língua, escolas, associações, imprensa, igrejas e sociabilidades próprias, nas quais a identidade alemã foi preservada com vigor incomum. Em Blumenau, por exemplo, Frotscher mostra que em 1927 53% dos habitantes declaravam o alemão como língua materna, contra 28% de português; em Benedito Timbó, a predominância do alemão chegava a 86%. Isso mostra que, mais de um século após o início da colonização, grandes segmentos da população brasileira de descendência alemã ainda viviam em um meio linguístico e cultural fortemente separado, embora muitos jamais tivessem pisado na Alemanha.
Essa separação não era mera percepção brasileira, mas um fato histórico concreto. Já antes de 1933, nas chamadas colônias alemãs, havia forte resistência à integração nacional plena, manutenção deliberada de uma esfera étnica própria e reprodução de um “nós” alemão por meio da língua, da escola, das associações, da imprensa e da vida comunitária. Nos anos 1930, com a ascensão do nazismo, esse meio tornou-se ainda mais vulnerável à politização germanista. A organização do partido nazista, o NSDAP, no Brasil, já ativa desde 1928 e oficialmente estruturada a partir de 1934, deu forma partidária a tendências anteriores de separação identitária. Foi nesse contexto que o chamado perigo alemão ressurgiu no Brasil como problema concreto de soberania nacional. O Deutschtum herdado do nacionalismo linguístico alemão do século XIX exacerbou-se na Alemanha até desembocar no nacional-socialismo. No Brasil, parcelas desse mesmo germanismo também se radicalizaram e foram nazificadas.
É nesse ambiente que o nazismo encontrou terreno. A pesquisa reunida por Bertonha e Athaides no livro No livro O nazismo e as comunidades alemãs no exterior: o caso da América Latina, mostra que há registros de atividades nazistas no Brasil desde 1928, quando Benedito Timbó, em Santa Catarina, sediou o primeiro núcleo do NSDAP fora da Alemanha. A Landesgruppe Brasilien, seção brasileira oficial, seria fundada em 1934, mas sua base já existia antes em núcleos autônomos. Mais tarde, o partido estruturou-se em círculos, grupos locais, pontos de apoio, células e organizações paralelas no Brasil, inclusive ligadas à juventude, ao trabalho, às mulheres e aos professores. Não se tratava de fantasia conspiratória. Havia organização real, capilaridade real e tentativa real de coordenação ideológica.
Mas o essencial aqui não é perguntar apenas quem era formalmente nazista. Essa pergunta é estreita demais. O problema real era mais fundo. O nacional-socialismo não caiu sobre um vazio. Ele encontrou, em partes da comunidade teuto-brasileira, um meio histórico já preparado por um “Wir” alemão persistente, cultivado por décadas por meio da língua, das escolas, das igrejas, da imprensa, das associações e de uma autopercepção coletiva que não se dissolvia no pertencimento brasileiro. Assim, a minoria politizada e organizada não foi um acidente isolado. Foi a ponta de lança de um problema muito mais amplo. Era o pico do iceberg. O iceberg era a longa duração de um germanismo cultural, linguístico, associativo e identitário já politizado desde o Segundo Império alemão, que o nazismo não precisou criar, mas apenas radicalizar, reorganizar e colocar com facilidade a serviço do seu próprio projeto. Esse processo de radicalização do Deutschtum encontrou terreno favorável tanto dentro da Alemanha quanto em toda parte onde existissem comunidades alemãs no exterior.
Nesse ponto, o livro de Frotscher é especialmente importante porque mostra o que esse ambiente produziu em sua forma mais explícita: famílias que saíram do Brasil para voltar ao Reich nazista. E aqui é preciso fazer uma distinção cronológica honesta. O retorno*** estudado por Frotscher ocorreu em 1938-1939, portanto antes dos torpedeamentos alemães a navios brasileiros em 1942. Logo, o livro não prova que aqueles retornados partiram depois de a Alemanha ter atacado o Brasil. O que ele prova – e isso é historicamente grave o suficiente – é que já antes de 1942 existia no Brasil uma fração de alemães e de famílias teuto-brasileiras suficientemente identificada com o Reich para abandonar o país e atender ao chamado político, simbólico e identitário da Alemanha nazista.
Depois, em 1942, a realidade tornou-se brutal. A Alemanha nazista atacou diretamente na costa marítima do Brasil navios brasileiros, um país neutro que não estava envolvido na guerra; em agosto de 1942, em poucos dias, vários navios foram afundados, matando homens, mulheres e crianças, e o conjunto dos ataques contra navios mercantes brasileiros durante a guerra provocou mais de mil mortes.
Já não se tratava de uma disputa abstrata de lealdades. Era sangue brasileiro derramado por submarinos alemães contra um país que ainda era neutro. Mas esse choque de 1942 não nasceu no vazio. O ambiente germanista anterior ajuda a explicar por que o Estado brasileiro já percebia a questão como um problema concreto de soberania nacional. A documentação relativa à campanha de nacionalização deixa isso claro: havia legislação, medidas administrativas e repressão dirigidas contra atividades políticas estrangeiras, contra a imprensa em língua alemã, contra associações e escolas, e contra a própria Landesgruppe Brasilien da AO-NSDAP. A questão não era apenas cultural. Era política.
A questão era também saber quem definia o pertencimento nacional de descendentes já nascidos no Brasil. Em partes desse meio germanista, a decisão já havia sido tomada havia décadas: permanecer alemão em território brasileiro. Não se tratava apenas de conservar língua, escolas, associações e imprensa próprias. Em seu horizonte mais radical, tratava-se de transformar solo brasileiro em solo alemão – isto é, de submeter partes do Sul do Brasil a uma ordem cultural, étnica e politicamente alemã, incompatível com a soberania nacional brasileira.
Há quem tente reduzir tudo isso a exagero nacionalista brasileiro. Isso é historicamente cômodo, mas insuficiente. O próprio material sobre o nazismo e as comunidades alemãs no exterior mostra que o objetivo da AO-NSDAP era penetrar ideológica e pessoalmente as associações dos “alemães do exterior” para criar uma Volksgemeinschaft mundial de orientação nacional-socialista. Isso não significa que existisse um plano operacional simples e linear para anexar o Sul do Brasil ao Reich. Mas significa, sim, que existia um projeto transnacional de mobilização, disciplina e alinhamento político de alemães e descendentes no exterior. E o Brasil, com sua numerosa população de origem alemã, era um dos casos centrais.
A comunidade teuto-brasileira não chegou ao Brasil como massa neutra pronta para se dissolver na nação brasileira. Chegou com um “nós” alemão já formado e o reproduziu por gerações. Esse Wir alemão, herdado de uma longa tradição de autoafirmação coletiva, continuou a estruturar língua, escola, associações, imprensa, igrejas e sociabilidades próprias em solo brasileiro. Por isso, a integração não foi a orientação profunda desse meio, mas algo frequentemente parcial, involuntário e imposto pelas circunstâncias. O trabalho, a agricultura, a abertura de estradas, a formação de colônias e as demais contribuições materiais ao Brasil não significavam, nesse horizonte, adesão plena ao pertencimento brasileiro. Em amplos setores, tudo isso era vivido dentro da continuidade de uma presença alemã que resistia à nacionalização e que pretendia preservar, consolidar e expandir uma esfera alemã em território brasileiro. Em sua forma mais radical, esse processo não visava apenas manter uma diferença cultural: visava transformar partes do solo brasileiro em solo alemão no sentido cultural, étnico e político.
Também não é honesto fingir que tudo isso morreu em 1945. O Estado alemão do pós-guerra proibiu o nazismo, mas isso não dissolveu automaticamente resíduos de identidade autoritária, excepcionalismo étnico e fantasias de superioridade no Sul do Brasil. É preciso evitar simplificações. O ponto não é transformar todos os descendentes de alemães em herdeiros políticos diretos do nazismo. O ponto é outro: reconhecer que a persistência desse “Wir” alemão hierarquizante, construído ao longo de mais de um século, deixou marcas profundas e não desapareceu por decreto. Ainda hoje, isso reaparece em tensões ligadas a superioridade cultural, racialização, exclusivismo comunitário e manifestações de neonazismo em partes do Sul do país.
O mérito do livro de Méri Frotscher está justamente em arrancar o debate da abstração. Ele mostra famílias concretas, nomes concretos, arquivos concretos, retornos concretos. E, ao fazê-lo, revela algo que muitos ainda preferem relativizar: o “Wir” alemão no Brasil não foi só memória afetiva, folclore ou apego à língua dos antepassados. Em 1938-1939, ele foi forte o bastante para levar gente a deixar o Brasil e a voltar para a Alemanha nazista. Quando esse dado é colocado ao lado do restante da documentação sobre o NSDAP no Brasil, sobre a nacionalização e sobre o germanismo político no Sul, o quadro fica claro. O problema nunca foi a imigração alemã em si. O problema foi a persistência, em setores dessa imigração e de sua descendência, de um pertencimento alemão politizado, hierarquizante e resistente à integração nacional brasileira.
Essa persistência não pertence apenas ao passado. Um exemplo revelador apareceu em 2013, no programa Nachtcafé, da televisão pública alemã SWR, em entrevista com a então Miss Blumenau, Kathleen Suzan Zwicker. No vídeo, ela afirma que, embora tenham nascido no Brasil, “todos lá” seriam alemães, e a lógica apresentada é precisamente a da descendência e do sangue – “nós temos sangue alemão” -, não a do pertencimento ao Brasil. Mas a fala não se limita ao sangue. Em outro momento, ela afirma também: “wir behalten diese Kultur” – “nós mantemos esta cultura”. O pertencimento reivindicado aparece, assim, assentado em dois pilares: sangue e cultura. Não se trata apenas de memória familiar ou tradição regional, mas da afirmação de um “nós” que se entende como portador de uma continuidade alemã em solo brasileiro. A fala torna-se ainda mais significativa porque, no contexto da entrevista, culmina na recusa explícita do retorno: ela declara que não quer mais voltar ao Brasil. Isso desmonta a tese cômoda do “mero folclore”. O que aparece ali não é apenas traje típico, festa ou memória familiar, mas a formulação aberta de um pertencimento alemão que se sobrepõe ao nascimento em solo brasileiro.
Um vídeo de 2025, protagonizado por um casal de Santa Catarina (Jenifer Milbratz e Cleiton Stainzack,), reforça de forma crua a permanência dessa lógica. A mensagem é clara: Santa Catarina tornou-se objeto de desejo de brasileiros de outras regiões, mas só teria legitimidade para permanecer ali quem viesse como “ordeiro e trabalhador” e disposto a respeitar “a nossa cultura”. O ponto decisivo está justamente nessa expressão. “Nossa cultura” aparece como critério de admissão, distinção e hierarquização. Já não se trata apenas de orgulho regional, mas da velha estrutura de um “nós” que se considera portador superior de ordem, trabalho, dignidade e pertencimento, enquanto os outros precisam provar que merecem estar ali. O vídeo não prova nazismo. Mas prova algo historicamente persistente na região: uma linguagem de superioridade cultural e de exclusão simbólica que continua a separar “nós” e “os outros”.
Um segundo vídeo, também de 2025 e protagonizado pelo casal Jenifer Milbratz e Cleiton Stainzack, transforma em brincadeira aquilo que historicamente foi problema sério e aprofunda esse quadro de forma ainda mais reveladora. Estruturado em torno da pergunta “Como fazer um bebê alemão?”, ele desloca o Deutschtum para um registro aparentemente leve, doméstico e humorístico, mas justamente por isso muito significativo. O que ali se encena não é apenas a preservação de uma tradição familiar, mas a valorização de um Deutschtum corporificado: sobrenome, aparência, trajes, ambiente e localização em Pomerode são apresentados como elementos de uma mesma continuidade. O Deutschtum deixa de aparecer apenas como memória cultural e passa a ser insinuado como algo herdado, reconhecível e exibível. Isso importa porque mostra como o velho “nós” alemão sobrevive também em forma banalizada e estetizada. Já não se fala em retorno ao Reich, em Volksgemeinschaft ou em nacional-socialismo. Mas a estrutura profunda permanece visível: origem, linhagem, distinção, segregação, regras de pertencimento e orgulho de continuidade. O vídeo mostra a permanência de um repertório identitário em que o Deutschtum ainda pode ser exibido como herança valorizada, como marca especial e como diferença positiva em relação ao entorno brasileiro.
Esse tipo de comportamento não é um detalhe folclórico tardio, mas um sintoma histórico. Ele mostra que o universo mental que veio a sustentar o Deutschtum, desde o início da imigração alemã no Brasil, em 1824, desenvolveu-se ao longo de gerações, resistiu à nacionalização e serviu de base à sua politização – e, mais tarde, também à politização nazista. Esse universo não desapareceu nem após 1918 nem após 1945. O Deutschtum sobrevive, em formas atenuadas ou deslocadas, na linguagem cotidiana do pertencimento, na exaltação da origem e na persistência de uma autoimagem alemã em solo brasileiro. Nada semelhante, em sentido brasileiro, teria sido tolerado por tanto tempo em território alemão – nem no Segundo Império, nem no Terceiro Reich, nem na Alemanha de hoje. Foi essa tolerância brasileira que permitiu ao chamado perigo alemão tornar-se tão latente que o Estado acabou recorrendo às duras medidas de nacionalização do período Vargas.
Justamente por isso, o problema histórico do germanismo político no Sul do Brasil não pode ser tratado como assunto morto. Ele pertence à longa duração de um Wir alemão que, em diferentes épocas e contextos, continuou a disputar o significado do pertencimento nacional em solo brasileiro.
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*) Extensos arquivos pessoais e documentos da AO, incluindo os do Rückwandereramt, encontram-se hoje preservados no Arquivo Federal Alemão e estão acessíveis para consulta.
**) Deutschtum = Germanidade.
***) O termo “retorno” fazia sentido dentro da lógica nazista porque o regime não limitava a germanidade ao local de nascimento: também os descendentes de alemães nascidos no exterior eram concebidos como pertencentes naturalmente ao povo alemão.
