Wertegeleitete Außenpolitik: política externa orientada por valores – velhos valores da política externa alemã
Lula foi entrevistado pela emissora pública alemã ARD em 21 de abril de 2026. Ainda assim, as questões que mais claramente expõem a degradação do Brasil foram simplesmente ignoradas. Não houve nenhuma pergunta séria sobre escândalos de corrupção envolvendo pessoas próximas a ele, incluindo seu filho e seu irmão; nenhum exame real do enfraquecimento das instituições democráticas; nenhum foco nos direitos humanos no Brasil; nenhuma atenção à violência urbana; e nenhum tratamento honesto da devastação da Amazônia. Esses eram exatamente os tipos de temas que obcecavam a ARD e grande parte da mídia alemã quando Bolsonaro estava no poder. Sob Lula, porém, eles em grande medida desapareceram da pauta. Isso expõe um vergonhoso duplo padrão. Com Lula no poder, a ARD já não demonstra preocupação séria com a destruição real que está ocorrendo no Brasil.
O verdadeiro interesse agora é outro: atacar os Estados Unidos, mesmo que Lula precise ser usado para esse fim. A Alemanha está irritada porque os americanos já não se comportam como parceiros obedientes dentro da estrutura do G7. Como Lula escolheu o confronto com Trump, atores alemães agora exploram essa postura para sugerir, indiretamente, que até mesmo o Brasil está contra ele. Isso é oportunismo escancarado. A Alemanha evita confrontar diretamente os Estados Unidos quando isso lhe é inconveniente e, em vez disso, faz uso de vozes estrangeiras úteis para transmitir a mensagem por ela.
Lula, por sua vez, parece inteiramente à vontade nesse papel. Ele gosta de ser aplaudido, bajulado e elevado pelos grandes centros de poder. Agora que os Estados Unidos e Israel apoiam seu inimigo político, Bolsonaro, ele intensificou seu ativismo em solo alemão e se ofereceu voluntariamente a esse arranjo conveniente. Isso não é estadismo. É vaidade, cálculo e disposição para servir a interesses que não são necessariamente os do Brasil.
A Alemanha também sabe o quanto a democracia brasileira sofreu sob os governos anteriores de Lula, e que a situação atual é ainda pior. Mesmo assim, a Alemanha está mais uma vez preparada, sem constrangimento, para repetir a mesma lógica que marcou sua conduta durante a ditadura militar brasileira: interesse econômico acima de princípio moral. Naquela época, o que importava era o lucro no Brasil sob a proteção do regime. Hoje, a mesma lógica permanece em vigor, apenas revestida por uma linguagem mais sofisticada e acompanhada de pose moralista.
No passado, a Alemanha chegou inclusive a encomendar pesquisas de imagem sobre si mesma porque queria alinhar sua imagem pública entre os brasileiros com seus interesses empresariais no Brasil durante a ditadura. Hoje, uma pesquisa desse tipo provavelmente produziria maus resultados. A história das relações germano-brasileiras ainda não é bem conhecida pela maioria dos brasileiros, especialmente fora da região Sul do país. Ainda assim, essa história confirma aquilo que até mesmo altas autoridades do nosso tempo às vezes admitem: não existe amizade entre países, apenas interesse econômico. Na minha opinião, o Brasil fez tudo o que foi possível para ser amigo da Alemanha e do povo alemão. Foi por isso que a Alemanha tentou conduzir a relação na direção oposta?
À luz dessa história de amizade entre os dois países, vale lembrar que, quando alinhada com os Estados Unidos, a Alemanha participou da espionagem contra o Brasil por mais de vinte anos — ao longo da década de 1970, da década de 1980 e de parte da década de 1990 – naquilo que ficou conhecido como Operação Rubikon, uma das maiores operações de espionagem de sua história. Isso ocorreu numa época em que empresas alemãs no Brasil realizavam negócios extremamente lucrativos. Ao mesmo tempo, enquanto lucrava com o Brasil de múltiplas formas e ajudava a aprofundar o sofrimento da população, a Volkswagen cooperava com o aparato policial que perseguia e torturava trabalhadores brasileiros. A Volkswagen chegou inclusive a empregar um ex-nazista para espionar seus próprios empregados no Brasil e repassar informações às forças de repressão. Durante esse mesmo período, a Alemanha também concluiu seu maior acordo industrial do pós-guerra em condições desfavoráveis ao Brasil. A Siemens estava ligada tanto ao projeto de espionagem quanto ao projeto industrial-nuclear.
Mais uma vez, à luz da história das relações germano-brasileiras, é espantoso que Lula tenha escolhido visitar justamente a Volkswagen. A Alemanha possui no Brasil seu maior parque industrial fora do território alemão, e ainda assim Lula escolheu dar visibilidade precisamente à empresa que carrega esse legado sombrio. Isso não foi nem inocente nem trivial. Foi simbólico. E, como símbolo, diz muito sobre o tipo de aliança política e econômica que agora está sendo cultivada: uma aliança fundada não na dignidade do povo brasileiro, mas na conveniência das elites, no cinismo diplomático e na velha lógica da exploração disfarçada de parceria.
Nenhum chanceler alemão se comportaria dessa maneira. Tampouco a maioria dos alemães ignoraria esse passado com tanta facilidade. A história das relações entre Alemanha e Brasil conta uma história muito diferente sobre amizade e interesse nacional entre os dois países: a Alemanha defende sua própria terra, seus próprios interesses e sua posição estratégica – inclusive em solo brasileiro – com determinação e sem sentimentalismo, sustentada por um sentimento profundamente enraizado de identidade coletiva e continuidade nacional, algo que o vocabulário alemão mais antigo descreveria como Volkstum.
Esse é o verdadeiro escândalo. O Brasil continua a se oferecer a potências estrangeiras sem seriedade, memória ou respeito próprio, enquanto a Alemanha continua a pregar moralidade no exterior e a praticar realismo econômico sempre que se sente forte o suficiente para explorar a fraqueza do outro parceiro. O Brasil fornece a ingenuidade; a Alemanha fornece a hipocrisia.
Ainda assim, no fim, cada lado apenas age de acordo com sua própria inteligência e sua própria capacidade. A verdade mais perturbadora é que a democracia brasileira se tornou um mecanismo favorável à nossa própria destruição. Estritamente falando, o problema não é apenas a Alemanha. O problema maior é o próprio Brasil, que se desenvolveu de tal maneira que repetidamente age contra a vontade e os interesses da maioria dos brasileiros. Enquanto a Alemanha possui uma cultura cívica e política que ajuda seu país a avançar, os brasileiros parecem ser moldados por uma disposição muito diferente.
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