Em 1839, os balaios tomaram Caxias, uma das cidades mais importantes do Maranhão. O episódio assustou as elites locais e o governo imperial porque mostrou que a revolta popular não era apenas desordem: era consequência direta de uma sociedade marcada pela pobreza, pela opressão e pela exclusão. Hoje o crime organizado toma o Brasil.

Como ocorre em toda explosão social, a Balaiada também atraiu grupos que se aproveitaram do clima de revolta para praticar saques e ataques a propriedades particulares, especialmente contra aqueles vistos como beneficiários ou cúmplices das estruturas de poder. Mas reduzir o movimento a isso é ignorar sua causa mais profunda: a indignação de uma população esmagada pela desigualdade.
Quase dois séculos depois, o Brasil parece repetir a mesma lógica. Nas décadas de 1970 e 1980, a combinação de injustiça, corrupção, pobreza e serviços públicos precários empurrou muitos brasileiros para a marginalidade. Nos anos 1990 e nas primeiras décadas do século XXI, o crime organizado ganhou estrutura, território e poder. Certamente não surgiu do nada. Cresceu em um país onde o Estado falhou com os pobres e foi generoso com os poderosos.
Enquanto milhões de brasileiros enfrentavam as terríveis consequências de décadas de má gestão, omissão e autoproteção dos três poderes – escolas precárias, mortes em postos de saúde sem médicos, falência econômica provocada pela hiperinflação e insegurança crescente – setores do poder público consolidavam seus próprios privilégios. Altos salários, penduricalhos, aposentadorias especiais, acúmulo de benefícios, pensões vitalícias e direitos adquiridos em décadas passadas continuaram aprofundando o abismo entre o Estado e a população comum. Assim, enquanto a maioria pagava o preço da crise, uma elite institucional seguia protegida por normas, cargos e vantagens criadas dentro do próprio sistema que deveria servir à sociedade.
O teto constitucional, criado para limitar excessos e promover algum equilíbrio, muitas vezes é contornado por gratificações, benefícios e interpretações legais que preservam vantagens. Assim, cresce a percepção de que existem três países dentro de um só.
O primeiro é o país da maioria: submetido à lei, à pobreza, à burocracia, à insegurança e à punição. O segundo é o país das elites institucionais: protegido por cargos, normas, benefícios e blindagens legais. O terceiro é o país do crime organizado, que avança justamente onde o Estado abandona, onde a desigualdade sufoca e onde a impunidade dos de cima destrói a confiança dos de baixo.
O crime organizado é inimigo da sociedade. Mas também é sintoma de uma sociedade adoecida por injustiças históricas, abandono institucional e privilégios normalizados. Quando a lei pesa sobre os pobres, mas parece flexível diante dos poderosos, abre-se espaço para que outras forças disputem autoridade, território e pertencimento.
Desde a Balaiada no Maranhão, a injustiça social no Maranhão e em todo o Brasil é produzida, protegida e perpetuada por muitos daqueles que deveriam combatê-la. A pergunta, portanto, permanece incômoda e urgente: quando a injustiça social é fabricada por quem governa, protegida por quem legisla e tolerada por quem julga, ela ainda pode ser tratada apenas como falha administrativa ou escolha política? Ou já deveria ser chamada pelo nome que merece: crime contra o povo?




Em 2022, segundo dados do módulo de trabalho e rendimento do último Censo, divulgado nesta 5ª feira (9.out.2025) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia Estatística), o rendimento mensal médio dos trabalhadores brasileiros em 2022 era de R$ 2.851. De lá pra cá ele certamente não cresceu.

