Durante a monarquia e nos primeiros trinta anos da República, os três Poderes apostaram na europeização como suposta solução para “melhorar” o Brasil. Em vez de reconhecer, valorizar e desenvolver a própria população, buscou-se importar modelos, referências e padrões externos, como se o problema do país fosse seu povo – e não a forma como o poder o tratava.

Com o passar do tempo, essa lógica não desapareceu. Os três Poderes continuaram produzindo maus resultados, cujos impactos recaíram de maneira cada vez mais dura sobre a maioria dos brasileiros. A precariedade dos serviços públicos, a desigualdade persistente, a falta de oportunidades, a insegurança e a má gestão foram se acumulando geração após geração.
A partir da chamada década perdida, nos anos 1980, os efeitos dessa sucessão de fracassos institucionais tornaram-se ainda mais evidentes. A crise econômica, a inflação, o desemprego e a perda de perspectivas passaram a empurrar muitos brasileiros para fora do país em busca de trabalho, estabilidade e uma vida digna.
Durante muito tempo, sair do Brasil também foi dificultado por entraves burocráticos, econômicos e legais. Mas, à medida que as regras mudaram e o acesso ao exterior se tornou menos restrito, muitos brasileiros passaram a buscar fora do país aquilo que o próprio Brasil não lhes oferecia: segurança, respeito, oportunidade, renda e previsibilidade.
A partir do primeiro governo Lula, esse processo ganhou outra dimensão. O Brasil passou a “expulsar” brasileiros em massa, não formalmente, mas pela força das circunstâncias. A combinação de má gestão, corrupção, insegurança, baixa qualidade dos serviços públicos, falta de perspectiva e deterioração institucional fez com que cada vez mais pessoas concluíssem que construir uma vida digna no próprio país havia se tornado difícil demais.
Depois de mais de um século de resultados desastrosos a incapacidade do sistema de valorizar sua própria gente transformou-se em cultura. O sofrimento foi normalizado. A precariedade passou a ser tratada como destino. A falta de respeito ao cidadão tornou-se parte do cotidiano. E o povo, submetido por gerações a esse ambiente de frustração, acabou muitas vezes se acostumando a sobreviver onde deveria viver como cidadão de um país riquíssimo.
