A Guerra de Canudos (1896 – 1897)

O poder mal intencionado contra a população que sofria a consequência do trabalho desse poder.

  • Na fase final do conflito, quando os campezinos não se deixavam vencer pelo mesmo Estado que os colocou naquela situação, o Estado mobilizou inclusive artilharia pesada, como canhões alemães Krupp, evidenciando o uso de força militar moderna contra uma população majoritariamente civil, armada com instrumentos de trabalhar o campo, mal alimentada, mal vestida, completamente vulnerável.
  • Canudos foi um massacre de grandes proporções, marcado pela destruição quase total de uma população civil pelo Estado.

A Guerra de Canudos: origem, conflito e massacre

Para se entender Canudos é preciso extenuar a visão e tomar conhecimento de como era o Brasil nesta época.

Parte I: O contexto social de Canudos

No final do século XIX, o Brasil republicano com o lema de Ordem e Progresso era governado por elites que orientavam sua visão de sociedade quase exclusivamente a partir de referências europeias. Nesse contexto, consolidou-se uma hierarquia cultural em que tudo o que se aproximava dos padrões europeus era valorizado como sinônimo de progresso, enquanto expressões culturais de origem africana, indígena e também genuinamente brasileira (popular) – incluindo aquelas associadas às camadas mais pobres e aos pequenos comerciantes – eram sistematicamente marginalizadas.

Mais do que uma preferência pontual, tratava-se de uma lógica dominante: a construção do país era pensada sob a ótica das elites, que pouco se identificavam com a realidade social e cultural da maior parte da população brasileira.

Embora majoritariamente nascidas no próprio Brasil, essas elites orientavam sua identidade cultural e seus valores quase inteiramente por referências europeias, principalmente França e Alemanha. A Europa era vista como modelo de civilização, progresso e ordem, enquanto o Brasil real – especialmente o nordeste, nele o sertão e suas populações – era frequentemente percebido como atrasado, desorganizado ou até mesmo como um obstáculo ao projeto de modernização do país.

Esse distanciamento contribuiu para a formação de um ambiente de desinteresse e tensão social, no qual movimentos como o de Canudos surgiram. Para as elites e para o Estado republicano, tais movimentos eram vistos não como expressões legítimas de organização social, mas como ameaças à ordem e ao projeto de nação que buscavam impor.

Assim, o conflito de Canudos não pode ser compreendido apenas como um episódio isolado, mas como resultado direto de profundas desigualdades sociais, culturais e políticas que marcavam o Brasil daquele período – desigualdades produzidas, mantidas e aprofundadas por um projeto de país conduzido pelas elites ignorando a maioria da população.

Essas elites, distantes da realidade da maior parte da população, construíram uma ordem social excludente, na qual amplos setores da sociedade eram sistematicamente marginalizados e tratados como obstáculos ao progresso. Canudos foi, portanto, não apenas um conflito militar, mas a expressão violenta de um choque entre o Brasil oficial – que buscava se moldar a padrões europeus – e o Brasil real, composto por milhões de brasileiros invisibilizados.

A persistente prática de enganar a população

Esse processo, contudo, representava uma profunda contradição em relação aos próprios ideais do movimento republicano. A República, proclamada sob o lema “Ordem e Progresso”, prometia modernização, cidadania e construção de uma nação mais justa. No entanto, o que se consolidou foi a apropriação desse projeto por grupos militares e elites políticas que, na prática, afastaram-se desses princípios.

Em vez de ampliar a inclusão e fortalecer a cidadania, instaurou-se uma ordem que excluía, reprimia e silenciava grande parte da população. Nesse sentido, pode-se afirmar que a formação da República brasileira, em seus primeiros anos, representou um reforço dos valores europeus e uma ruptura – ou mesmo uma traição – aos valores brasileiros que proclamava defender.

Nas décadas seguintes, essa lógica excludente não apenas persistiu, como foi reforçada por correntes de pensamento como o movimento eugenista dos anos 1930, que buscaram legitimar, sob uma aparência científica, a hierarquização social e racial já presente na estrutura do país.

Parte II: O surgimento do Arraial de Canudos

A campanha de Canudos foi motivada por um conjunto de fatores concretos. Entre eles, destaca-se a situação de extrema pobreza e abandono em que vivia a população do sertão nordestino, marcada por secas recorrentes, ausência do Estado e condições de trabalho frequentemente precárias nas grandes propriedades rurais.

Nesse contexto, a atuação religiosa autônoma de Antônio Conselheiro ganhou força ao oferecer organização social, apoio mútuo e uma alternativa concreta de vida para milhares de pessoas. Sua liderança, fora do controle da Igreja Católica institucional, gerou tensões com o clero local, já alinhado à nova ordem republicana que não tinha como objetivo a ordem e o progresso prometidos quando da instauração da república.

A formação de Canudos passou a afetar interesses econômicos regionais, pois atraia trabalhadores que deixavam as fazendas. Isso provocou reação de proprietários de terras, que pressionaram autoridades locais e federais.

A partir dessas pressões, consolidou-se, no governo republicano, a interpretação de que Canudos representava uma ameaça à ordem estabelecida. Na prática, essa “ordem” correspondia aos interesses dominantes na região – incluindo além dos proprietários de terra, lideranças da Igreja e autoridades políticas locais – que viam na comunidade de Canudos uma ruptura com as estruturas econômicas, sociais, religiosas e institucionais vigentes.

Porém, nesse sentido, Canudos não ameaçava a ordem proclamada pela República, mas sim um arranjo concreto de poder que, na prática, contrariava a promessa de “Ordem e Progresso”. A organização da nova ordem republicana preservou estruturas sociais herdadas do período monárquico, mantendo amplos setores da população – negros, indígenas e outros grupos de brasileiros genuínos, e a região nordeste era onde eles majoritariamente se situavam – à margem das políticas de desenvolvimento econômico e social.

A instauração da República não contou com participação popular efetiva. Ainda assim, uma vez consumada, não gerou reação organizada significativa por parte da população, sendo assimilada como um fato estabelecido, sustentado pela promessa de “Ordem e Progresso”, apresentada como caminho para a modernização e melhoria das condições do país.

Essas elites, juntamente com imigrantes que chegavam e se integravam (ou não, como no caso de alguns grupos alemães), alinhados com a cultura de segregação da ainda jovem república, difundiam visões preconceituosas sobre grande parte da população brasileira, principalmente a nordestina, frequentemente tratada como atrasada ou incapaz de se integrar ao modelo de desenvolvimento proposto.

Canudos surge, nesse contexto, como o ponto em que essa promessa de „ordem e progresso“ positivista se rompe na prática. Em vez de integração, o que se verificou foi a exclusão de uma parcela significativa da população; em vez de progresso compartilhado, a manutenção de desigualdades estruturais. A reação do Estado à experiência de Canudos – tratada como ameaça à ordem – expôs de forma concreta o limite dessa promessa, revelando a distância entre o projeto proclamado e a realidade vivida por grande parte dos brasileiros.

A campanha militar, portanto, não foi resultado de um único fator, mas da convergência entre exclusão social, conflitos econômicos, tensões religiosas e decisões políticas tomadas sob forte pressão e percepção de risco.

Parte III: Canudos – o choque entre o abandono social e o projeto de país das elites

A Guerra de Canudos (1896–1897) teve origem nas condições extremas de pobreza, abandono estatal e desigualdade no sertão nordestino. Enquanto o governo investia em políticas de incentivo à imigração europeia para as regiões Sul e Sudeste – financiando a vinda de imigrantes, distribuindo terras e oferecendo recursos para o cultivo -, grande parte da população brasileira, especialmente negros, indígenas e os habitantes do Nordeste, foi sistematicamente negligenciada.

A região nordestina, que outrora teve papel central na economia e na sustentação do Brasil imperial, permaneceu marcada pelo abandono, pela seca e pela ausência de políticas públicas efetivas, enquanto o Sul e o Sudeste eram favorecidos por políticas de investimento e integrados ao projeto de modernização do país.

Outras regiões, como o Norte e o Centro-Oeste, também permaneciam à margem desse projeto nacional. No Norte, apesar de o ciclo da borracha ter gerado riqueza pontual e concentrada, predominavam a exploração social, a desigualdade e a ausência de uma presença efetiva e estruturante do Estado. Já o Centro-Oeste seguia pouco povoado, com baixa integração econômica e limitada atuação estatal.

Nesse contexto, o Nordeste – então uma das regiões mais populosas do país – permaneceu amplamente negligenciado. Suas populações, em grande parte pobres e historicamente marginalizadas, eram frequentemente vistas pelas elites sob uma ótica de inferiorização social e cultural, o que contribuiu para a ausência de políticas públicas consistentes e para o aprofundamento de suas dificuldades estruturais.

O abandono do Nordeste se deu por transformações econômicas e políticas ao longo do século XIX. A região, que havia sido central durante o período colonial e no início do Brasil Império, perdeu importância relativa com o deslocamento do eixo econômico para o Sudeste, impulsionado pela expansão do café. Ao mesmo tempo, o Nordeste foi palco de diversas resistências e movimentos políticos – como a Confederação do Equador (1824)* e outras revoltas regionais – que evidenciavam tensões com o poder central. O Ceará, por exemplo, destacou-se ao abolir a escravidão já em 1884, antes mesmo da Lei Áurea. Esse histórico de tensões políticas, somado à perda de centralidade econômica, contribuiu para a redução de investimentos na região, que passou a enfrentar condições crescentes de pobreza e permaneceu marcada por crises como a seca, agravando suas condições sociais

*) A Confederação do Equador foi uma revolta ocorrida em 1824, principalmente no Nordeste do Brasil (com destaque para Pernambuco), contra o governo central do imperador Dom Pedro I.

Liderados por Antônio Conselheiro, milhares de sertanejos – muitos ex-escravizados, trabalhadores pobres e marginalizados – reuniram-se em Canudos em busca de sobrevivência, proteção e organização comunitária. A comunidade rejeitava impostos, a autoridade republicana e certas mudanças impostas pelo novo regime, o que gerou forte desconfiança por parte do governo.

É importante destacar que Canudos surgiu como resposta à exclusão social histórica. Ainda durante a monarquia, antes de 1889, movimentos populares e revoltas regionais já eram duramente reprimidos. No entanto, o conflito de Canudos ocorreu sob a República, que herdou e deu continuidade a práticas de repressão contra populações consideradas ameaças à ordem.

A imprensa da época, especialmente jornais como O Paiz e a Gazeta de Notícias, teve papel central na construção de uma imagem de Canudos como ameaça política, divulgando textos atribuídos a Antônio Conselheiro cuja autenticidade é questionada. Outros jornais também contribuíram para a difusão dessa narrativa.

O governo republicano focou em Canudos como um foco de resistência política e possível restauração monárquica, o que levou a uma reação militar intensa. Foram enviadas quatro expedições; após derrotas iniciais, a ofensiva final mobilizou cerca de 8 a 10 mil soldados.

A destruição de Canudos foi completa. Estima-se que entre 20 e 30 mil habitantes viviam na comunidade, e que cerca de 15 a 25 mil pessoas morreram, a maioria civis. O massacre final incluiu mulheres, crianças e idosos, evidenciando a brutalidade da repressão estatal.

Canudos revelou um Estado que, em vez de proteger, voltou-se contra sua própria população, impondo violência sobre aqueles que já viviam sob as consequências de sua negligência.

Canudos revela algo fundamental:

A República nasceu prometendo ordem e progresso, mas manteve – e, em muitos casos, aprofundou – práticas de exclusão e violência contra as camadas mais pobres da população. O Nordeste foi historicamente marginalizado, enquanto o Sul e o Sudeste, beneficiados por políticas de incentivo à imigração européia e por maior concentração de investimentos fomentados pelo governo central, passaram por processos mais acelerados de desenvolvimento. Tudo aquilo que era genuinamente brasileiro era considerado de má qualidade e de baixo valor para investimento – o Nordeste é o berço do Brasil.

A política de embranquecimento (europeização do Brasil) refletiu a política de “modernizar” o Brasil à custa da exclusão social, privilegiando a imigração européia enquanto marginalizava a população negra, brasileira e de índios após 1888.

A europeização do Brasil foi vista como solução para elevar o nível econômico e social do país a patamares europeus, altamente valorizados pelo imperador e suas elites, que posteriormente o depuseram e fundaram a República, prometendo aquilo que nunca efetivamente desejaram para o Brasil: a ordem e o progresso para todos os brasileiros. Esse desequilíbrio regional fez com que o Nordeste permanecesse por décadas marcado pela pobreza, pela seca e pela insuficiência de políticas públicas, recebendo maior atenção do Estado apenas ao longo do século XX.

Conclusão

Canudos: repressão estatal, punição coletiva e herança histórica

O que ocorreu em Canudos pode ser compreendido como uma repressão conduzida pelo Estado sob influência das elites, marcada por uma lógica de punição coletiva. A campanha militar resultou na destruição sistemática da comunidade, com a eliminação de grande parte de sua população civil e a completa devastação de suas casas e meios de subsistência.

Mais do que um confronto militar, Canudos revelou a disposição do poder constituído de tratar uma parcela da própria população como inimiga interna, submetendo-a a uma violência extrema que ultrapassou os limites de uma simples ação de guerra.

Canudos não foi apenas uma rebelião, mas a expressão de um Brasil marginalizado que buscava alternativas diante da ausência do Estado. Sua destruição, marcada por um massacre em larga escala, simboliza a incapacidade — ou recusa — do poder central em compreender e integrar essas populações.

O episódio expõe uma continuidade histórica: muitos dos problemas estruturais daquele período ainda persistem. A exclusão se manifesta, ainda hoje, na falta de empoderamento econômico e profissional de grande parte da população brasileira, enquanto setores das elites — historicamente ligados aos centros de poder desde o início da República — frequentemente legislam em causa própria, por vezes em tensão com os princípios estabelecidos na Constituição Federal.

Foto: Fotos de Canudos de autoria de Flavio de Barros, o único fotógrafo que acompanhou o exército. Museu da República.

Mulheres e crianças cansadas, com sede e famintas aprisionadas pelo exército brasileiro republicano.

Desde Canudos, observa-se na história brasileira a recorrência de ciclos de contestação coletiva diante de um sistema frequentemente percebido como excludente, desigual ou incapaz de responder às demandas sociais. Em diferentes momentos, essa dinâmica assumiu formas diversas: na Revolta da Vacina (1904), como reação popular às imposições autoritárias do Estado; na Revolta da Chibata (1910), como denúncia de abusos e desigualdades dentro das próprias instituições; na Guerra do Contestado (1912–1916), marcada pela exclusão social e pelos conflitos fundiários; nas greves operárias do início do século XX, que expressaram a resistência dos trabalhadores frente à exploração; nas mobilizações pelas Diretas Já (1983–1984), que pressionaram pela redemocratização; nos protestos pelo impeachment de Fernando Collor (1992), impulsionados por denúncias de corrupção; e nas Jornadas de Junho de 2013, que evidenciaram a insatisfação generalizada com os serviços públicos e a representação política. Em contrapartida, episódios como os de 8 de janeiro de 2023 revelam outra face da crise de legitimidade institucional: não a reivindicação de inclusão política, mas a contestação da própria ordem democrática, respondida pelo Estado com forte coercitividade.